Brincadeiras de Rua que as Crianças de Hoje Não Conhecem
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Houve um tempo em que a rua era o quintal de todas as crianças. Bastava terminar o almoço, guardar o material da escola e correr para a calçada, onde a turma do bairro já estava reunida. Não havia celular, videogame nem internet. A diversão era feita de criatividade, movimento e gargalhadas.
Essas brincadeiras de rua marcaram gerações inteiras de brasileiros. Muitas delas sobreviveram por séculos, passando de avós para netos, sem precisar de manual de instruções. Eram simples, geniais e infinitamente divertidas.
Neste artigo, vamos relembrar as brincadeiras que fizeram parte da infância de quem hoje tem mais de 60 anos. Prepare-se para uma viagem no tempo, cheia de boas memórias.
Pega-pega
A mais universal das brincadeiras. Uma criança era o “pegador” e precisava tocar em outra para passar o papel. A regra era simples: quem fosse pego virava o pegador. E assim a brincadeira seguia, com todo mundo correndo e gritando pela rua.
Havia variações infinitas:
- Pega-pega congelante: quem era pego ficava parado (congelado) até outro jogador tocá-lo para libertá-lo.
- Pega-pega corrente: quem era pego dava a mão ao pegador, formando uma corrente que ia crescendo.
- Pega-pega alto: quem estivesse em um lugar alto (um degrau, um muro baixo) não podia ser pego.
O pega-pega não precisava de nada além de pernas para correr e fôlego para aguentar. E como a gente corria.
Esconde-esconde
Outra brincadeira que toda criança conhecia. Uma pessoa ficava de olhos fechados, contando até um número combinado, enquanto as outras se escondiam. Ao terminar a contagem, o grito ecoava pela rua: “Lá vou eu!”
A emoção de encontrar o esconderijo perfeito, de ficar parado sem respirar enquanto o pegador passava perto, e a corrida desesperada para “bater” no ponto antes de ser encontrado. Cada partida era uma aventura.
Os melhores esconderijos eram disputados: atrás do portão do vizinho, dentro de um latão, no telhado do galinheiro, em cima de uma árvore. E sempre tinha alguém que se escondia tão bem que a brincadeira acabava antes de ser encontrado.
Amarelinha
Com um pedaço de giz e uma pedrinha, o chão da calçada se transformava em um campo de jogo. A amarelinha (ou academia, em algumas regiões) era desenhada com casas numeradas de 1 a 10, e o desafio era jogar a pedrinha, pular de casa em casa sem pisar na linha e sem perder o equilíbrio.
As regras variavam de bairro para bairro, mas a essência era a mesma: coordenação, equilíbrio e muita concentração. Quem pisasse na linha ou perdesse o equilíbrio passava a vez.
Havia quem desenhasse amarelinha simples, e quem criasse versões enormes e elaboradas, ocupando a calçada inteira. Era arte e esporte ao mesmo tempo.
Bolinha de gude
As bolinhas de gude eram verdadeiros tesouros. Cada criança tinha sua coleção: as transparentes, as leitosas, as coloridas, as grandes (as “bolões”). E o jogo era levado a sério como uma competição profissional.
O jogo mais comum era o “triângulo”: desenhava-se um triângulo no chão de terra, cada jogador colocava algumas bolinhas dentro e, de uma distância combinada, tentava tirá-las do triângulo com sua “bolinha de ataque”. As bolinhas que saíssem do triângulo eram do jogador que as acertou.
Também havia o “boca”, em que se fazia um buraco na terra e os jogadores tentavam acertar a bolinha dentro dele. E o “jogo de rua”, em que a bolinha precisava ser lançada o mais longe possível, em uma espécie de corrida.
As disputas eram acirradas e, volta e meia, terminavam em discussões acaloradas sobre se a bolinha tinha ou não cruzado a linha. Mas no dia seguinte, todo mundo já estava jogando junto de novo.
Pipa (ou papagaio, pandorga, arraia)
Dependendo da região do Brasil, o nome era diferente, mas a brincadeira era a mesma: construir e empinar pipas. E não era uma pipa comprada em loja. Era feita em casa, com varetas de bambu, papel de seda e cola caseira.
A arte de fazer pipa era passada de pai para filho. Cada detalhe fazia diferença: o corte do papel, a posição das varetas, o comprimento da rabiola. Uma pipa bem feita subia alto e permanecia firme no céu, orgulho do seu criador.
A linha era preparada com cerol (mistura de cola e vidro moído), e a grande emoção era cortar a linha de outro empinador em pleno voo. Quando a pipa adversária era cortada e caía, a gritaria era geral, e as crianças saíam correndo para pegar a pipa caída, o famoso “pegar pipa”.
Eram tardes inteiras olhando para o céu, sentindo o vento, criando e competindo. Uma brincadeira que misturava engenharia, arte e aventura.
Queimada (ou queimado, caçador, mata-mata)
Duas equipes, uma bola e muita agilidade. A queimada era a brincadeira favorita nas aulas de educação física e também nas ruas mais largas do bairro.
As regras básicas: dois times se posicionavam de lados opostos de um campo imaginário. Um jogador arremessava a bola tentando acertar (queimar) alguém do time adversário. Quem fosse queimado ia para o “cemitério” (atrás do campo adversário), mas podia voltar se conseguisse queimar alguém de lá.
A emoção de desviar da bola por um triz, a glória de queimar o melhor jogador do time adversário, e o drama de ser o último sobrevivente do seu time. Cada partida era uma saga.
Cabra-cega
Uma criança com os olhos vendados tentava pegar as outras, que ficavam ao redor provocando, batendo palmas e desviando no último segundo. Quando conseguia pegar alguém, precisava adivinhar quem era apenas pelo toque. Se acertasse, o pego assumia a venda.
Era uma brincadeira cheia de risadas, especialmente quando o cabra-cega ia na direção oposta de todo mundo ou tropeçava em algum obstáculo. Confiança e coragem de brincar no escuro.
Peteca
Antes do badminton se popularizar no Brasil, a peteca já era nossa há séculos, herança dos povos indígenas. Feita de penas e uma base de couro ou borracha, a peteca era rebatida com a palma da mão, e o objetivo era não deixá-la cair no chão.
Podia ser jogada individualmente, em duplas ou em grupos. Nas versões competitivas, uma rede dividia os times, como no vôlei. Nas versões de rua, a brincadeira era simplesmente manter a peteca no ar o maior tempo possível.
O som da palma da mão batendo na peteca, o voo imprevisível das penas e as acrobacias para salvá-la antes de tocar o chão. Uma brincadeira genuinamente brasileira.
Elástico
Duas crianças ficavam com o elástico esticado nos tornozelos enquanto uma terceira fazia uma sequência de pulos sobre ele. A cada rodada bem-sucedida, o elástico subia: dos tornozelos para os joelhos, dos joelhos para a cintura, da cintura para o peito.
As sequências de pulos tinham nomes e coreografias que variavam de escola para escola. Algumas eram simples, outras exigiam uma agilidade impressionante. Quem errasse passava a vez.
O elástico era brincadeira especialmente popular entre as meninas, mas muitos meninos também participavam, mesmo que fingissem desinteresse.
Cinco Marias (ou jogo de pedrinhas)
Cinco pedrinhas eram tudo o que se precisava. O jogo consistia em jogar uma pedrinha para cima e, enquanto ela estava no ar, pegar uma ou mais pedrinhas do chão e depois aparar a que estava caindo. As fases iam ficando mais difíceis: pegar uma de cada vez, depois duas, três, quatro e, finalmente, todas de uma vez.
Era um jogo de destreza e coordenação motora fina. As meninas costumavam ser as melhores, com mãos ágeis que realizavam os movimentos com uma velocidade impressionante.
Roda (cantigas de roda)
“Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar…” As cantigas de roda reuniam as crianças menores em uma roda cantante e dançante. “Atirei o pau no gato”, “A canoa virou”, “Escravos de Jó”, “Capelinha de melão” e tantas outras faziam parte do repertório.
Cada cantiga tinha uma coreografia, um gesto ou uma brincadeira associada. Eram simples, repetitivas e extremamente divertidas para os pequenos. Muitas dessas cantigas tinham origens que remontavam a séculos, trazidas pelos colonizadores portugueses e misturadas com elementos africanos e indígenas.
Outras brincadeiras inesquecíveis
A lista é longa e cada bairro tinha suas favoritas:
- Pular corda: sozinho ou em grupo, com cantigas que ditavam o ritmo.
- Bete (taco): um esporte de rua com tacos de madeira e uma bolinha, ancestral do críquete.
- Carrinho de rolimã: feito de madeira e rolimãs de aço, era a Fórmula 1 das ladeiras do bairro.
- Bandeirinha (ou rouba-bandeira): dois times tentavam invadir o campo adversário para pegar a bandeira sem ser pego.
- Telefone sem fio: uma frase sussurrada de orelha em orelha e que chegava ao final completamente diferente.
- Estátua: quando a música parava, todos tinham que ficar imóveis. Quem se mexesse, saía.
Um tempo que não volta, mas que vive em nós
Essas brincadeiras não precisavam de bateria para funcionar, de conexão com a internet nem de atualização de software. Precisavam apenas de crianças dispostas a brincar, de uma rua com espaço e de uma tarde livre.
Hoje, a realidade é outra. As crianças têm tablets, videogames e uma infinidade de entretenimento digital. Não é o caso de dizer que era melhor ou pior. Era diferente. E essa diferença carrega uma beleza que merece ser lembrada e celebrada.
Se você tem netos, bisnetos ou crianças na família, que tal ensiná-los algumas dessas brincadeiras? Leve-os para a calçada, desenhe uma amarelinha, ensine a fazer uma peteca, organize um pega-pega. Você vai ver que a diversão não precisa de tecnologia para existir. E, quem sabe, entre uma brincadeira e outra, você revive um pouquinho daquela criança que ainda mora dentro de você.
Porque essas brincadeiras não ficaram no passado. Elas estão guardadas no coração de cada um de nós, prontas para serem lembradas sempre que alguém disser: “Na minha época, a gente brincava na rua…”
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